Rose Marie – o nascimento da mulher livre


Videofólio da Patrona do Feminismo Brasileiro, a escritora Rose Marie Muraro

“O mundo com mais mulheres tem menos guerra,

menos violência e menos corrupção”


Divulgação Instituto Cultural Rose Marie MuraroPublicou livros polêmicos, contestadores e inovadores dos valores sociais modernos.

Nos anos 70, foi uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil.

Nos anos 80, quando a Igreja adotou uma postura mais conservadora, passou a ser perseguida por causa de seus ideais e princípios.

Rose Marie Muraro tinha 5 filhos e 12 netos, frutos de um casamento de 23 anos

Rose Marie Muraro foi eleita, por nove vezes, A Mulher do Ano.

Em 1990 e 1999, recebeu, da revista Desfile, o título de Mulher do Século. E da União Brasileira de Escritores, o de Intelectual do Ano, em 1994.


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Conheceu o então padre Helder Câmara e se tornou membro de sua equipe. Os movimentos sociais criados por ele nos anos 40 tomaram o Brasil inteiro na década seguinte. Nos anos 60, o golpe militar teve como alvo não só os comunistas, mas também os cristãos de esquerda.

A Editora Vozes foi um capítulo à parte na vida de Rose. Lá, trabalhou com Leonardo Boff durante 17 anos e das mãos de ambos nasceram os dois movimentos sociais mais importantes do Brasil, no século XX: o movimento de emancipação das mulheres e a teologia da libertação – até hoje, base da luta dos oprimidos. Nos anos 80, presenciou a virada conservadora da Igreja.

E em 1986, Rose e Boff foram expulsos da Vozes, por ordem do Vaticano. Motivo: a defesa da teologia da libertação, no caso de Boff e a publicação, por Rose, do livro Por uma erótica cristã.

O trabalho de Rose, como editora, foi um marco na história da resistência ao regime militar. Devido a este trabalho, recebeu, do Senado Federal, o Prêmio Teotônio Vilela, em comemoração aos 20 anos da anistia no Brasil.

Foi palestrante nas universidades de Harvard e Cornell, entre tantas outras instituições de ensino americanas, num total de 40. Editou até o ano 2000 o selo Rosa dos Tempos, da Editora Record. Foi cidadã honorária de Brasília (2001) e de São Paulo (2004). Ganhou o Prêmio Bertha Lutz (2008).

Pela Lei 11.261 de 30/12/2005 passada pelo Congresso Nacional foi nomeada Patrona do Feminismo Brasileiro.

A atuação intensa no mercado editorial é fruto de uma mente libertária cuja visão atenta da sociedade pode ser comparada a de muito poucos intelectuais da atualidade.As idéias refletem-se na vida pessoal desta mulher notável;Rose Marie Muraro desafiou os próprios limites quando, aos 66 anos, recuperou a visão com uma cirurgia e viu seu rosto pela primeira vez.

“Sei hoje que sou uma mulher muito bonita.”

“Existem vários movimentos de mulheres que não são feministas, que não têm a mulher como foco. Por exemplo, movimento de donas de casa, pelo meio ambiente, pela paz. Existe, inclusive, movimento de mulheres para levar cafezinho para os homens nas reuniões. No entanto, movimentos enfocando a condição da mulher, por definição, são feministas.”


[tabs title=”” disabled=”false” collapsible=”true” active=”0″ event=”click”] [tab title=”Texto de Frei LEONARDO BOFF para Rose Marie”]

Rose Marie Muraro: a saga de uma mulher impossível

22/06/2014 – Frei LEONARDO BOFF No dia 21 de junho concluiu sua peregrinação terrestre no Rio de Janeiro uma das mulheres brasileiras mais significativas do século XX: Rose Marie Muraro (1930-2014). Nasceu quase cega. Mas fez desta deficiência o grande desafio de sua vida. Cedo intuiu que só o impossível abre o novo; só o impossível cria. É o que diz no seu livro Memórias de uma mulher impossível (1999,35). Com parquíssima visão formou-se em física e economia. Mas logo descobriu sua vocação intelectual: de ser uma pensadora da condição humana especialmente da condição feminina. Foi ela que no final dos anos 60 do século passado, suscitou a polêmica questão de gênero. Não se limitou à questão das relações desiguais de poder entre homens e mulheres mas denunciou relações de opressão na cultura, nas ciências, nas correntes filosóficas, nas instituições, no Estado e no sistema econômico. Enfim deu-se conta de que no patriarcado de séculos reside a raiz principal deste sistema que desumaniza mulheres e também homens.

Realizou em si mesma um impressionante processo de libertação, narrado no livro Os seis meses em que fui homem (1990,6ª edição). Rose-Marie-Muraro-ADTV-Audiencia-de-Tv-20111Mas a obra quiçá mais importante de Rose Marie Muraro tenha sido Sexualidade da Mulher Brasileira: corpo e classe social no Brasil (1996). Trata-se de uma pesquisa de campo em vários Estados da federação, analisando como é vivenciada a sexualidade, tomando em conta a situação de classe das mulheres, coisa ausente nos pais fundadores do discurso psicanalítico. Neste campo Rose inovou, criando uma grelha teórica que nos faz entender a vivência da sexualidade e do corpo consoante as classes sociais. Que tipo de processo de individuação pode realizar uma mulher famélica que para não deixar o filhinho morrer, dá o sangue de seu próprio seio?

rose marie muraro, leonardo boff Trabalhei com Rose por 17 anos como editores da Editora Vozes: ela responsável pela parte científica e eu pela parte religiosa. Mesmo sob severo controle dos órgãos de repressão militar, Rose tinha a coragem de publicar os então autores malditos como Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso Paulo Freire os cadernos do CEBRAP e outros.

Depois de anos de longa discussão e estudo em conjunto reunimos nossas convergências num livro que considero seminal Feminino & Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças (Record 2010). Destaco apenas uma frase dela:

”educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade”.

Sem deixar nunca de lado a questão do feminino (no homem e na mulher) voltou-se cedo aos desafios da ciência e da técnica moderna. Já em 1969 lançava Autonomação e o futuro do homem e previa a precarização do mundo do trabalho. A crise econômico-financeira de 2008 levou-a colocar a questão do capital/dinheiro com o livro Reinventando o capital/dinheiro (Idéias e Letras 2012), onde enfatiza a relevância das moedas sociais e complementares e as redes de trocas solidárias que permitem aos mais pobres garantirem sua subsistência à revelia da economia capitalista dominante. Rose Marie Muraro-Memórias de uma mulher impossível - 10Outra obra importante, realmente rica em conhecimentos, dados e reflexões culturais se intitula Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade: querendo ser Deus? (Vozes 2009). Neste texto ela se confronta com a ponta da ciência, com a nanotecnologia, a robótica, a engenharia genética e a biologia sintética. Vê vantagens nessas frentes, pois não é obscurantista. Mas pelo fato de vivermos dentro de uma sociedade que de tudo faz mercadoria, inclusive a vida, percebia o grave risco de os cientistas presumirem poderes divinos e usarem os conhecimentos para redesenharem a espécie humana.

Daí o sub-título: Querendo ser Deus? Essa é a ingênua ilusão dos cientistas.

O que nos salvará não é essa nova Revolução Tecnológica mas, como diz Rose, é a

“Revolução da Sustentabilidade, a única que poderá salvar a espécie humana da destruição…pois a continuarmos como está, não estaremos em um jogo ganha-perde e sim no terrível jogo perde-perde que significará a destruição de nossa espécie, na qual todos perderemos”(Reinventando o Capital/dinheiro, 238).

Rose possuía um sentimento do mundo agudíssimo: sofria com os dramas globais e celebrava os poucos avanços. Nos últimos tempos Rose via nuvens sombrias sobre todo o planeta, pondo em risco o nosso futuro. Morreu preocupada com as buscas de alternativas salvadoras. Mulher de profunda fé e espiritualidade, sonhava com as capacidades humanas de transformar a tragédia anunciada numa crise purificadora rumo a uma sociedade que se reconcilie com a natureza e a Mãe Terra. Conclui seu livro Os avanços tecnológicos com esta sábia frase:

”quando desistirmos de ser deuses poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que é, mas que intuímos desde sempre”(p. 354).

Proclamada a 30 de dezembro de 2005 oficialmente pelo Presidente, Patrona do Feminismo Brasileiro e com a criação da Fundação Cultural Rose Marie Muraro em 2009 deixará um legado de fecundo humanismo para as futuras gerações. Rose Marie Muraro mostrou em sua saga pessoal que o impossível não é um limite mas um desafio. Ela se inscreve na linhagem das grandes mulheres arquetípicas que ajudam a humanidade a preservar viva a lamparina sagrada do cuidado por tudo o que existe e vive. Nesse afã ela se tornou imorredoura.

Leonardo Boff   trabalhou na Editora Vozes por 17 anos junto com Rose Marie Muraro

[/tab] [tab title=”OBRAS”]

  • EDUCANDO MENINOS E MENINAS PARA UM MUNDO NOVO (2007)
  • HISTORIA DO MASCULINO E DO FEMININO (2007)
  • UMA NOVA VISAO DA POLITICA E DA ECONOMIA (2007)
  • HISTORIA DO MEIO AMBIENTE (2007)
  • PARA ONDE VAO OS JOVENS (2007)
  • A MULHER NA CONSTRUÇAO DO FUTURO (2007)
  • O QUE AS MULHERES NAO DIZEM AOS HOMENS (2006)
  • DIALOGO PARA O FUTURO (2006)
  • MAIS LUCRO (2006)
  • ESPIRITO DE DEUS PAIROU SOBRE AS AGUAS (2004)
  • POR QUE NADA SATISFAZ AS MULHERES E OS HOMENS NAO (2003)
  • UM MUNDO NOVO EM GESTAÇÃO (2003)
  • AMOR DE A A Z (2003)
  • A PAIXAO PELO IMPOSSIVEL (2003)
  • FEMININO E MASCULINO (2002)
  • AS MAIS BELAS ORAÇOES DE TODOS OS TEMPOS (2001)
  • TEXTOS DA FOGUEIRA (2000)
  • A ALQUIMIA DA JUVENTUDE (1999)
  • MEMORIAS DE UMA MULHER IMPOSSIVEL (1999)
  • AS MAIS BELAS PALAVRAS DE AMOR (1996)
  • SEXUALIDADE DA MULHER BRASILEIRA (1996)
  • SEIS MESES EM QUE FUI HOMEM (1993)
  • A MULHER NO TERCEIRO MILENIO (1993)
  • POEMAS PARA ENCONTRAR DEUS (1990)

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“A grande autonomia das mulheres veio com a pílula anticoncepcional e a pílula do dia seguinte. Com isso, a mulher, pela primeira vez, em dois mil anos, desliga a sexualidade da maternidade.

Este foi o grande avanço que permitiu a autonomia, o estudo e o controle do corpo. O resto é secundário.

A fertilização in vitro é algo secundário diante disso. A partir da pílula e dos métodos anticoncepcionais, nos anos 1960, é que aconteceu todo o movimento de autonomização da mulher e o fato de ela se tornar o sujeito maior da história. Produção independente de filhos sempre houve depois dos anos 1960.”

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Feminista pioneira reconhece a força das redes sociais

Monique Rangel Portal da Puc Rio

08/03/2012

Por trás da aparência de uma frágil senhora de 81 anos, praticamente cega, pernas e pés inchados, moradora de Copacabana há 40 anos, as jovens Rachel Tenório, 27 anos, e Úrsula Dalcomo, 26, foram surpreendidas com a vitalidade, o humor e as sempre fortes opiniões da escritora Rose Marie Muraro. Para as integrantes do Coletivo de Mulheres da PUC, grupo feminista que se reúne desde 2009 na universidade, o encontro com a patrona do movimento no Brasil representava mais do que uma oportunidade de discutir pontos pendentes na busca de uma sociedade justa, como a diferença de remuneração ainda observada entre homens e mulheres. Ali, no aconchego do apartamento que lembra casa de vó, livros ao redor, o silêncio interrompido só pelos passos das duas acompanhantes da anfitriã, Rachel, Úrsula e Rose Marie dissiparam o tempo. Conversaram sobre os desafios do feminismo ontem e hoje, sobre as razões muito próximas que as levaram ao caminho comum e, é claro, sobre amenidades – como viagens e namoro. “Ela (Rose Marie) parece uma de nossas companheiras”, emocionou-se Rachel ao deixar o prédio onde passara duas horas de uma manhã inesquecível.

Divulgação Instituto Cultural Rose Marie Muraro
Divulgação Instituto Cultural Rose Marie Muraro

Beirava às 10h de sábado quando a octogenária recebeu com espirituosidade as jovens feministas e a equipe do Portal PUC-Rio Digital. “Puxa, acabei de acordar, esqueci o nosso encontro. Querem um suco? Vamos lá, sentem-se, vamos conversar.”, convidou. Era a deixa para um papo que navegaria, com agradável naturalidade, entre as formas de opressão contra a mulher e o papel “delas” na transformação da sociedade, mas também encontraria espaço para confidências como a nova paixão de Rose Marie.

A escritora, que também é física de formação, destacou a importância crescente da tecnologia para revoluções sociais. Referia-se, em especial, ao computador e às redes sociais. Para ela, a velocidade e a amplitude dessas ferramentas tiveram papel fundamental nas recentes mudanças no mundo árabe e em movimentos como o “Ocupe Wall Street”:

– Hoje, é graças ao Facebook e as redes sociais que a juventude, os filhos dos hippies e das feministas se mobilizam. Eles não querem pagar as contas dos ricos e pedem que o dinheiro flua pelo mundo inteiro. Engraçado que nos anos 70 eu disse que nós estávamos preparando a cabeça da geração do século XXI. E não deu outra. O futuro está com eles, dou a maior força – entusiasmou-se.

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Reprodução documentário

Reprodução documentário

Trocas de experiências e indicações de materiais com a temática feminista e política não faltaram ao papo. Rose recomendou que as meninas passassem a ler oLe Monde Diplomatique, mas alertou: para terem acesso aos artigos, elas teriam que “soltar uma grana”. Ao ser indagada pelas jovens se tinha visto o filme “A dama de Ferro” (Phyllida Lloyd, 2011), que rendeu à Meryl Streep o Oscar, pela interpretação de Margaret Tatcher, a anfitriã sacou novamente sua inabalada espirituosidade: “Ainda não vi e nem vou ver, porque eu não enxergo”.

O clima descontraído só era interrompido quando a conversa girava em torno de questões pendentes sobre os direitos femininos, como a diferença de salários entre os sexos. Se por um lado, segundo pesquisa do IBGE, em 2010, cerca de 28% dos lares brasileiros eram chefiados por “elas”, por outro,  a quarta edição do levantamento (“Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça”, lançada em novembro do ano passado) aponta que as mulheres continuam ganhando menos do que os homens. O rendimento médio mensal do homem, em 2009, era R$ 1.149; o da mulher, R$ 756. Sendo que a mulher branca recebe, em média, R$ 957 e a negra, R$ 544.

Na avaliação de Rose Marie, a educação se mostra insuficiente para diminuir tal diferença. Ela responsabiliza o capitalismo pela manutenção de “uma sociedade sexista com preconceito racial”:

Divulgação Instituto Cultural Rose Marie Muraro

 – A mais-valia vem justamente do trabalho da mulher e dos negros. Eles (os capitalistas) precisam da submissão da mulher e do racismo. Primeiro vem o trabalhador branco, depois a trabalhadora branca, o trabalhador negro, e quem leva o peso da sociedade é a mulher negra.

O feminismo no Brasil traz em seu DNA a luta de classes e as marcas deixadas pela ditadura. A ousadia das mulheres que lutavam pela democracia contra um regime conservador e machista como o dos militares, atiçou a curiosidade de Úrsula, recém-formada pela PUC-Rio em Psicologia, e fez com que se tornasse feminista após ter sido apresentada, em 2009, ao Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). No mesmo ano, ajudou a organizar o Coletivo de Mulheres da PUC, a fim de aprofundar seus conhecimentos sobre o feminismo.

– Não há revolução feminista sem a luta de classes. Ssão indissociáveis. Não podemos analisar nada em essa ótica. A conversa com Rose Marie vem para ratificar isso. Nós todas sofremos com o preconceito, o Brasil é um país machista. Com a Revolução Industrial, só recebemos a liberdade que foi conveniente ao capitalismo – critica a militante.

Outro assunto da manhã regada a papos feministas e femininos foi a violência contra as mulheres, um problema cuja solução ainda se insinua distante, a despeito de avanços como a Lei Maria da Penha. Para Úrsula, a legislação mais rigorosa não é o bastante:

– Em menos de três anos, várias amigas apanharam dos namorados. Eles pegam pelo cabelo. Já vi marca e olho roxo. A lei está no papel, mas a mudança deve ser feita na consciência. Se fosse eficaz, eles não teriam batido.

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Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Rose, Rachel e Úrsula têm em comum a necessidade de se libertarem da mentalidade de uma educação familiar repressora. Para Rachel, o machismo se reproduz de geração em geração “porque ainda é ensinado”. Ela voltou recentemente de uma viagem para Noruega e ficou admirada com a liberdade, inclusive sexual, das norueguesas:

– Eu percebi que os meninos da Noruega aprendem a respeitar a mulher. Aqui, o machismo está na cultura.

O tratamento desigual, em que pesem as conquistas políticas, econômicas e sociais, remonta, por exemplo, à Grécia Antiga, onde as mulheres ficavam isoladas em um local conhecido como gineceu. Ela convivia com escravos e não tinha o direito de participar das reuniões sociais da casa pois eram considerados seres inferiores.  A jornalista e doutora em Filosofia Rosangela Nunes Araújo, professora do Departamento de Comunicação Social, lembra que para Platão, e os gregos, a mulher era incapacitada para o pensamento e a reflexão filosófica:

– Os escravos e a mulheres gregas não tinham cidadania. A gente sabe que no caminho trilhado pela cultura ocidental a mulher, até muito pouco tempo atrás, estava excluída. Só no inicio do século XX ela teve o direito de votar. A Primeira Guerra Mundial preparou a grande virada para a cidadania da mulher, porque a maioria da população masculina morreu. As mulheres começaram a conjugar os afazeres femininos com a entrada no universo de trabalho do homem.

Rose Marie conta que o movimento feminista foi criado para defender, entre outras bandeiras, oportunidade iguais para homens e mulheres. Agora que a participação feminina no mercado já se mostra representativa tanto em volume quanto em qualificação, ainda falta a equiparação salarial. Como conquistá-la.

– Basta as mulheres se organizarem – orienta Rose Marie – Dizem que o feminismo é lugar de feia, lésbica e mal-amada. Eu já tive todos esses lindos apelidos…

– E doía? – perguntou Úrsula.

– Imagina se  iria ficar doída por causa de gente idiota. Eu tinha toda a juventude do meu lado. Eu me divertia à beça naquela época.

Risos ecoaram pela sala, nesta e em várias outras vezes, como quando Rose falou das paixões que despertava e ainda desperta. Confidenciou que tem um novo namorado e contou que, na juventude, os homens chegavam até ela “enlouquecidos, mas se assustavam porque ela buscava um amor profundo”.

O papo só foi interrompido pela proximidade da hora do almoço e pelo cansaço da escritora. Na despedida, as jovens feministas pediram para beijá-la a mão. “Pode beijar sim, e falem com as suas amigas para não serem idiotas”, arrematou Rose.

Jovens trazem debate feminista à universidadeOs avanços na cidadania da mulher devido a ação do movimento feminista do século XX são inegáveis: direito ao voto, difusão do uso de métodos contraceptivos, aceitação no mercado de trabalho, entre tantos outros. Entretanto, as conquistas não se mostraram suficientes. As mulheres ainda reclamam mais liberdade de expressão em espaços de poder, igualdade salarial e o fim da opressão. Para trazer esses assuntos ao âmbito da universidade, em 2009, foi criado o Coletivo de Mulheres da PUC.O grupo é aberto para alunas, funcionárias, e qualquer mulher, que se interesse nas bandeiras feministas, apontar problemas e propor soluções para a luta por uma sociedade mais igualitária. Nas reuniões são debatidos temas como liberdade sexual, melhores condições de trabalho, violência, feminicídio, exploração do corpo da mulher pela propaganda e trotes machistas. Como a frequência das reuniões depende de tempo para o encontro, elas mantém a discussão através do grupo fechado para mulheres no Facebook.Uma das fundadoras do Coletivo, a estudante do 8° período de Relações Internacionais da PUC-Rio, Carolina Peterli chama atenção para a pequena participação das universitárias nos Centros Acadêmicos e para a dificuldade de expressão de um pensamento em aula sem que sejam consideradas histéricas.– As mulheres foram que mais sofreram com a ditadura. Não só pelo que estava lutando mas por ter a ousadia de afrontar os militares. Até na História a nossa luta sofre com certa invisibilidade. Agora nos precisamos queimar os nossos sutiãs, calcinhas e vassouras. Precisamos ir às ruas porque ainda temos muitos desafios.

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RIO – A escritora Rose Marie Muraro, uma das principais representantes do movimento feminista no Brasil, morreu na manhã deste sábado, 21, aos 83 anos, no Hospital São Lucas, em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Ela estava internada no CTI da unidade de saúde desde o dia 12. Rose tinha câncer na medula óssea havia mais de dez anos e, no dia 15, entrou em coma e desenvolveu uma infecção respiratória. Ela será velada a partir das 8 horas de hoje no cemitério Memorial do Carmo, no Caju, na zona norte da cidade, e cremada às 16 horas. Rose tinha 5 filhos e 12 netos. A intelectual nasceu praticamente cega, mas conseguiu estudar – cursou faculdade de Física – e escreveu 44 livros. Nas décadas de 1970 e 1980, foi pioneira ao liderar o movimento feminista no País. [/tab] [/tabs]


Rose Marie Muraro-Memórias de uma mulher impossível

Rose Marie Muraro – Memórias de uma mulher impossível


 

Em uma rede social, a presidente Dilma Rousseff lamentou a notícia.

“Foi com tristeza que soube da morte de Rose Marie Muraro, ícone da luta pelos direitos das mulheres. Intelectual notável, Rose Mariue foi uma mulher determinada em tudo, na luta contra a barreira da cegueira, na luta pelas suas ideias. Somos todas gratas à dedicação incansável de Rose Marie”, escreveu.

Também em rede social, o Instituto Rose Marie Muraro postou um poema inédito da escritora com o título “O Pássaro de Fogo”. Leia abaixo o poema.


O Pássaro de Fogo

Tu vieste como um pássaro E pousaste no meu ombro E eu fui habitada

Pela paixão da entrega.

Eu te amei antes que tu existisses Como o deserto que tem sede de água E as flores tem sede da luz E te amei como a pedra ama a terra Que lhe dá sua força.

Com teu bico colocaste na minha mão esquerda A semente da morte E na direita a semente da vida Para que com as duas juntas Eu fizesse a escolha de cada momento Ligando o instante à sua profundidade eterna.

Pássaro de fogo Capaz de queimar sem consumir Estás dentro de mim.

Pássaro de fogo Irei onde tuas asas me conduzirem E meu caminho se tornou incandescente Como teus olhos.

  Rose Marie Muraro


Rose Marie Muraro-Memórias de uma mulher impossível - 11


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